sábado, 27 de agosto de 2016

Homilia: XXII Domingo do Tempo Comum - Ano C

 São Doroteu de Gaza
Conferência 2
Colocar-se abaixo de todos

Existem duas classes de humildade, assim como existem duas classes de orgulho: a primeira classe de orgulho consiste em desprezar ao seu irmão, não o levando em consideração, como se não fosse nada, e em crer-se superior a ele. Se não tratamos imediatamente de vigiar-nos com rigor, cairemos pouco a pouco na segunda espécie que consiste em exaltar-se diante do próprio Deus e atribuir suas boas obras a si mesmo e não a Deus. Devemos lutar contra a primeira classe de orgulho, para não cair lentamente no orgulho total.
Existe também um orgulho mundano e um orgulho monástico. O mundano consiste em crer-se mais do que seu irmão por ser mais rico, mais belo, melhor vestido ou mais nobre do que ele. Quando percebemos que nos gloriamos nestas coisas, ou que nosso monastério seja maior ou mais rico ou mais numeroso, saibamos que ainda estamos no orgulho mundano. O mesmo acontece quando nos vangloriamos de qualidades naturais, por exemplo: ter uma bela voz ou salmodiar bem, ou ser hábil ou de trabalhar e servir corretamente. Estes motivos são mais elevados que os primeiros. Embora ainda se trate do orgulho mundano.
O orgulho monástico consiste em gloriar-se de suas vigílias, de seus jejuns, de sua piedade, de suas observações, de seu zelo, assim como em humilhar-se por vaidade. Tudo isso é orgulho monástico. Se não podemos evitar de orgulhar-nos, convém que este orgulho recaia sobre coisas monásticas e não mundanas. Explicamos, então, qual é a primeira espécie de orgulho e qual a segunda; também temos definido o orgulho mundano e o orgulho monástico. Mostremos agora quais são as espécies de humildade.
A primeira consiste em considerar ao seu irmão como mais inteligente que a si mesmo e superior em tudo; a saber, como dizia um santo: “Colocar-se abaixo de todos”.
A segunda espécie de humildade consiste em atribuir a Deus as boas obras. Essa é a perfeita humildade dos santos. Ela nasce naturalmente na alma como consequência da prática dos mandamentos. De fato olhemos, irmãos, as árvores carregadas de frutos: são os frutos que fazem curvar e baixar os galhos. Ao contrário, o galho que não tem frutos se ergue no espaço e cresce direito. Inclusive há certas árvores cujos galhos não dão frutos enquanto se mantêm erguidos para o céu, porém, se lhes coloca uma pedra para orientá-los para baixo, então dão fruto. O mesmo acontece com a alma: quando se humilha dá fruto, e quanto mais produz, mais se humilha. Porque quanto mais se aproxima de Deus, mais pecador se vê.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, p. 707-708.

Angelus do Papa: XXI Domingo do Tempo Comum

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 21 de agosto de 2016

Bom dia, estimados irmãos e irmãs!
A página evangélica de hoje exorta-nos a meditar sobre o tema da salvação. O evangelista Lucas narra que Jesus está em viagem rumo a Jerusalém, e durante o percurso aproxima-se uma pessoa que lhe faz a seguinte pergunta: «Senhor, são poucos os homens que se salvam?» (Lc 13, 23). Jesus não dá uma resposta direta, mas desvia o debate para outro plano, com uma linguagem sugestiva, que no início os discípulos talvez não tenham entendido: «Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não conseguirão» (v. 24). Mediante a imagem da porta, Ele quer levar os seus ouvintes a entender que não se trata de uma questão de número - quantos se salvarão - não importa saber quantos, mas é importante que todos saibam qual é o caminho que leva à salvação.
Este percurso prevê que atravessemos uma porta. Mas onde está a porta? Como é a porta? Quem é a porta? O próprio Jesus é a porta, como Ele mesmo diz no Evangelho de João: «Eu sou a porta» (Jo 10, 9). Ele guia-nos para a comunhão com o Pai, onde encontramos amor, compreensão e amparo. Mas podemos interrogar-nos por que motivo esta porta é estreita? Por que diz Ele que ela é estreita? Trata-se de uma porta estreita, não porque é opressiva, mas porque exige que limitemos e contenhamos o nosso orgulho e o nosso medo, para nos abrirmos a Ele com coração humilde e confiante, reconhecendo-nos pecadores, necessitados do seu perdão. Por isso é estreita: para conter o nosso orgulho, que nos incha. A porta da misericórdia de Deus é estreita, mas permanece sempre escancarada para todos! Deus não tem preferências, mas acolhe sempre todos, sem distinções. Uma porta estreita para restringir o nosso orgulho e o nosso medo, uma porta aberta de par em par, porque Deus nos recebe sem distinções. E a salvação que Ele nos concede é um fluxo incessante de misericórdia, que derruba qualquer barreira e abre surpreendentes perspetivas de luz e de paz. Porta estreita, mas sempre escancarada: não vos esqueçais disto!
Hoje Jesus dirige-nos, mais uma vez, um convite urgente a ir ao seu encontro, a passar pela porta da vida plena, reconciliada e feliz. Ele espera cada um de nós, independentemente de qualquer pecado que tenhamos cometido, para nos abraçar e para nos conceder o seu perdão. Só Ele pode transformar o nosso coração, somente Ele pode dar sentido pleno à nossa existência, oferecendo-nos a verdadeira alegria. Entrando pela porta de Jesus, pela porta da fé e do Evangelho, podemos sair das atitudes mundanas, dos maus hábitos, dos egoísmos e dos fechamentos. Quando existe o contato com o amor e a misericórdia de Deus, verifica-se a mudança autêntica. E a nossa vida é iluminada pela luz do Espírito Santo: uma luz inextinguível!
Gostaria de vos fazer uma proposta. Pensemos agora, em silêncio por um instante, naquilo que temos dentro de nós e que nos impede de atravessar a porta: o meu orgulho, a minha soberba, os meus pecados. E depois pensemos na outra porta, naquela porta aberta de par em par, da misericórdia de Deus, que do outro lado nos espera para nos conceder o perdão.
O Senhor oferece-nos muitas ocasiões para nos salvar e nos fazer passar pela porta da salvação. Esta porta é uma ocasião que não deve ser desperdiçada: não podemos proferir discursos académicos sobre a salvação, como aquela pessoa que se dirigiu a Jesus, mas devemos aproveitar as ocasiões de salvação. Porque num determinado momento «o Senhor entrará e fechará a porta» (v. 25), como nos recordou o Evangelho. Mas se Deus é bom e nos ama, por que razão numa certa altura fechará a porta? Porque a nossa vida não é um videojogo, nem uma telenovela; a nossa vida é séria, e o objetivo a alcançar é importante: a salvação eterna.
À Virgem Maria, Porta do Céu, peçamos que nos ajude a aproveitar as ocasiões que o Senhor nos oferece para passar pela porta da fé e assim entrar num caminho largo: é a vereda da salvação, capaz de acolher todos aqueles que se deixam envolver pelo amor. É o amor que nos salva, o amor que já na terra constitui a fonte de bem-aventuranças de quantos, na mansidão, na paciência e na justiça, se esquecem de si mesmos e se oferecem aos outros, especialmente aos mais frágeis.


Fonte: Santa Sé

Catequese do Papa: A multiplicação dos pães

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Bom dia, caros irmãos e irmãs!
Hoje queremos meditar sobre o milagre da multiplicação dos pães. No início da narração feita por Mateus (cf. 14, 13-21), Jesus acaba de receber a notícia da morte de João Batista, e de barca atravessa o lago, «para se retirar num lugar deserto» (v. 13). No entanto as pessoas compreendem e precedem-no a pé, de tal modo que, «quando desembarcou, vendo [Jesus] uma grande multidão, encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes» (v. 14). Jesus era assim: tinha sempre compaixão, pensava sempre nos outros. Impressiona a determinação do povo, que tem medo de ser deixado sozinho, como que abandonado. Depois da morte de João Batista, profeta carismático, confia-se a Jesus, de quem o próprio João tinha dito: «Aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que Eu» (Mt 3, 11). Assim a multidão segue-o por toda a parte para o ouvir e para lhe levar os enfermos. E ao ver isto, Jesus comove-se. Jesus não é insensível, não tem um coração arrefecido. Jesus é capaz de se comover. Por um lado, Ele sente-se ligado àquela multidão e não quer que ela vá embora; por outro, tem necessidade de momentos de solidão e de oração, com o Pai. Muitas vezes passa a noite em oração com o seu Pai.
Por conseguinte, também naquele dia o Mestre dedicou-se à multidão. A sua compaixão não é um sentimento indefinido; ao contrário, mostra toda a força da sua vontade de estar próximo de nós e de nos salvar. Jesus ama-nos em grande medida e quer permanecer perto de nós.
Ao cair da noite, Jesus preocupa-se em dar de comer a todas aquelas pessoas, cansadas e famintas, e cuida de quantos o seguem. E quer que os seus discípulos se tornem partícipes disto. Com efeito, diz-lhes: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (v. 16). E demonstrou-lhes que os poucos pães e peixes que tinham, com a força da fé e da oração, podiam ser compartilhados com toda aquela multidão. Jesus realiza um milagre, o milagre da fé e da oração, suscitado pela compaixão e pelo amor. Assim, Jesus «partiu os pães e deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo» (v. 19). O Senhor vai ao encontro das necessidades dos homens, mas deseja tornar cada um de nós concretamente partícipe da sua compaixão.
Agora, meditemos sobre o gesto de bênção de Jesus: Ele «tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Em seguida, partiu os pães e deu-os...» (v. 19). Como se vê, trata-se dos mesmos sinais que Jesus fez durante a última Ceia; e são também os mesmos gestos que cada sacerdote cumpre quando celebra a Sagrada Eucaristia. A comunidade cristã nasce e renasce continuamente desta comunhão eucarística. Por isso, viver a comunhão com Cristo é totalmente oposto ao permanecer passivo e alheio à vida de todos os dias mas, ao contrário, insere-nos cada vez mais no relacionamento com os homens e as mulheres do nosso tempo, para lhes oferecer o sinal concreto da misericórdia e da atenção de Cristo. Enquanto nos alimenta de Cristo, a Eucaristia que celebramos também nos transforma gradualmente em corpo de Cristo e alimento espiritual para os irmãos. Jesus quer alcançar cada um, para levar a todos o amor de Deus. Por isso, faz de cada crente um servidor da misericórdia. Jesus viu a multidão, encheu-se de compaixão por ela e multiplicou os pães; e assim faz a mesma coisa com a Eucaristia. Quanto a nós, crentes, que recebemos este pão eucarístico somos levados por Jesus a oferecer este serviço ao próximo, com a sua própria compaixão. Este é o percurso.
A narração da multiplicação dos pães e dos peixes conclui-se com a constatação de que todos ficaram saciados e com a recolha dos pedaços que sobejaram (cf. v. 20). Quando Jesus, com a sua compaixão e o seu amor nos concede uma graça, perdoa os pecados, abraça-nos e ama-nos, não faz as coisas pela metade, mas completamente. Como aconteceu aqui: todos ficaram saciados. Jesus enche o nosso coração e a nossa vida com o seu amor, o seu perdão, a sua compaixão. Portanto, Jesus permitiu que os seus discípulos cumprissem a sua ordem. Deste modo, eles descobrem o caminho que devem percorrer: dar de comer ao povo e mantê-lo unido; ou seja, permanecer ao serviço da vida e da comunhão. Portanto invoquemos o Senhor, para que torne a sua Igreja sempre capaz deste serviço santo e para que cada um de nós possa ser instrumento de comunhão na própria família, no trabalho, na paróquia e nos grupos de pertença, um sinal visível da misericórdia de Deus que não quer deixar ninguém na solidão e na necessidade, a fim de que desçam a comunhão e a paz entre os homens, e a comunhão dos homens com Deus, porque esta comunhão é vida para todos.


Fonte: Santa Sé

Angelus do Papa: Solenidade da Assunção de Maria

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria
Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Bom dia, prezados irmãos e irmãs! Feliz festa de Nossa Senhora da Assunção!
A página evangélica (cf. Lc 1, 39-56) da hodierna festa da Assunção de Maria ao Céu descreve o encontro entre Maria e a prima Isabel, ressaltando que «Maria se pôs a caminho dirigindo-se às pressas para uma região de montanha, a uma cidade de Judá» (v. 39). Naqueles dias, Maria corria rumo a uma pequena aldeia nos arredores de Jerusalém para se encontrar com Isabel. Hoje, ao contrário, contemplamo-la no seu caminho rumo à Jerusalém celeste, para se encontrar finalmente com a face do Pai e para rever o rosto do seu Filho Jesus. Muitas vezes na sua vida terrena Ela tinha percorrido regiões de montanha, até à derradeira e dolorosa etapa do Calvário, associada ao mistério da paixão de Cristo. Hoje vemo-la chegar à montanha de Deus, «revestida de sol, com a lua aos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas» (Ap 12, 1) - como reza o livro do Apocalipse - e vemo-la ultrapassar o limiar da Pátria celestial.
Ela foi a primeira que acreditou no Filho de Deus, a primeira que subiu ao Céu em alma e corpo. A primeira que recebeu e levou ao colo Jesus, quando Ele era ainda um Menino, a primeira que foi acolhida pelos seus braços para ser introduzida no Reino eterno do Pai. Precisamente porque acolheu e viveu o Evangelho, Maria, uma jovem humilde e simples de um povoado perdido na periferia do império romano, é recebida por Deus para permanecer por toda a eternidade ao lado do trono do Filho. É assim que o Senhor derruba os poderosos dos tronos e eleva os humildes (cf. Lc 1, 52).
A Assunção de Maria é um grande mistério que diz respeito a cada um de nós, ao nosso futuro. Com efeito, Maria precede-nos na vereda pela qual se encaminham aqueles que, mediante o Batismo, vincularam a sua vida a Jesus, assim como Maria uniu a Ele a própria vida. A festa de hoje leva-nos a fitar o firmamento, prenuncia «os novos céus e a nova terra», com a vitória de Cristo ressuscitado sobre a morte e a derrota definitiva do maligno. Por conseguinte, a exultação da Menina humilde da Galileia, expressa no cântico do Magnificat, torna-se o canto da humanidade inteira, que se compraz ao ver o Senhor debruçar-se sobre todos os homens e todas as mulheres, criaturas humildes, para as receber junto de si no céu.
O Senhor inclina-se sobre os humildes para os erguer, como proclama o cântico do Magnificat. Este canto de Maria leva-nos também a pensar nas numerosas situações dolorosas da atualidade, em particular nas mulheres esmagadas pelo peso da vida e pelo drama da violência, nas mulheres escravas da prepotência dos poderosos, nas meninas forçadas a trabalhos desumanos, nas mulheres obrigadas a render-se no corpo e no espírito à ganância dos homens. Possa chegar quanto antes para elas o início de uma vida de paz, de justiça e de amor, à espera do dia em que finalmente se sentirão arrebatadas por mãos que não as humilham, mas com ternura as erguem e as conduzem pelo caminho da vida, até ao Céu. Maria, uma Menina, uma Mulher que sofreu muito na sua vida, faz-nos pensar nestas mulheres que hoje sofrem tanto. Peçamos ao Senhor que Ele mesmo as conduza pela mão e que as acompanhe pela senda da vida, libertando-as destas escravidões.
E agora dirijamo-nos com confiança a Maria, dócil Rainha do Céu, pedindo-lhe: «Concede-nos dias de paz, vigia sobre o nosso caminho, faz com que vejamos o teu Filho repleto da alegria do Céu» (Hino das segundas vésperas).


Fonte: Santa Sé

Angelus do Papa: XX Domingo do Tempo Comum

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 14 de agosto de 2016

Bom dia, amados irmãos e irmãs!
O Evangelho deste domingo (cf. Lc 12, 49-53) faz parte dos ensinamentos de Jesus, dirigidos aos discípulos ao longo da sua subida rumo a Jerusalém, onde o espera a morte na cruz. Para indicar a finalidade da sua missão, Ele serve-se de três imagens: ofogo, o batismo e a divisão. Hoje desejo falar da primeira imagem: o fogo.
Jesus exprime-a com as seguintes palavras: «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e que quero Eu, senão que ele já se tenha ateado?» (v. 49). O fogo de que Jesus fala é a chama do Espírito Santo, presença viva e concreta em nós, a partir do dia do nosso Batismo. Ele - o fogo - é uma força criadora que purifica e renova, queima toda a miséria humana, todo o egoísmo e todo o pecado, transforma-nos a partir de dentro, regenera-nos e torna-nos capazes de amar. Jesus deseja que o Espírito Santo se propague como fogo no nosso coração, porque só começando a partir do coração o incêndio do amor divino poderá difundir-se e fazer progredir o Reino de Deus. Não começa na cabeça, mas no coração. E por isso, Jesus quer que o fogo entre no nosso coração. Se nos abrirmos completamente à ação deste fogo, que é o Espírito Santo, Ele infundir-nos-á a audácia e o fervor para anunciar a todos Jesus e a sua consoladora mensagem de misericórdia e de salvação, navegando em alto mar, sem receio.
No cumprimento da sua missão no mundo, a Igreja - ou seja, todos nós que somos a Igreja - tem necessidade da ajuda do Espírito Santo para não se deter pelo medo nem pelo cálculo, para não se acostumar a caminhar dentro de limites seguros. Estas duas atitudes levam a Igreja a ser uma Igreja funcional, que nunca corre riscos. Ao contrário, a intrepidez apostólica que o Espírito Santo acende em nós como um fogo ajuda-nos a superar os muros e as barreiras, torna-nos criativos e estimula-nos a pôr-nos em movimento para percorrer inclusive caminhos inexplorados ou desalentadores, oferecendo esperança a quantos encontramos. Mediante este fogo do Espírito Santo somos chamados a tornar-nos cada vez mais comunidades de pessoas orientadas e transformadas, cheias de compreensão, pessoas com um coração dilatado e com um semblante jubiloso. Hoje mais do que nunca há necessidade de sacerdotes, de consagrados e de fiéis leigos com o olhar atento do apóstolo, para se comover e para se deter diante das dificuldades e das pobrezas materiais e espirituais, caracterizando assim o caminho da evangelização e da missão com o ritmo purificador da proximidade. É exatamente o fogo do Espírito Santo que nos leva a tornarmo-nos próximos dos outros: das pessoas que sofrem, dos necessitados, de tantas misérias humanas, de tantos problemas, dos refugiados, dos deserdados, daqueles que sofrem. Aquele fogo que deriva do coração. O fogo!
Neste momento, penso também com admiração sobretudo nos numerosos sacerdotes, religiosos e fiéis leigos que, no mundo inteiro, se dedicam ao anúncio do Evangelho com grande amor e fidelidade, não raro até à custa da própria vida. O seu testemunho exemplar recorda-nos que a Igreja não tem necessidade de burocratas, nem de funcionários diligentes, mas de missionários apaixonados, devorados pelo ardor de anunciar a todos a palavra consoladora de Jesus e a sua graça. Este é o fogo do Espírito Santo. Se a Igreja não receber este fogo, ou se não o deixar entrar em si, tornar-se-á uma Igreja arrefecida, ou apenas tíbia, incapaz de dar vida porque feita de cristãos frios e mornos. Hoje, far-nos-á bem pensar cinco minutos e perguntar-nos: «Mas como está o meu coração? É frio, é tíbio? É capaz de receber este fogo?». Pensemos cinco minutos nisto. Fará bem a todos nós.
E peçamos à Virgem Maria que ore connosco e interceda por nós junto do Pai celestial, a fim de que Ele infunda em todos os fiéis o Espírito Santo, o fogo divino que aquece o coração e nos ajuda a ser solidários com as alegrias e os sofrimentos dos nossos irmãos. Que nos ajude no nosso caminho o exemplo de são Maximiliano Kolbe, mártir da caridade, cuja festa se celebra hoje: ele nos ensine a viver o fogo do amor a Deus e ao próximo.


Fonte: Santa Sé

sábado, 20 de agosto de 2016

Homilia: Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

São João Damasceno
Homilia III sobre a Dormição da Santíssima Mãe de Deus

Aproxima-te, ó Mãe, de teu Filho, aproxima-te e participa do poder régio daquele que, nascido de ti, contigo viveu na pobreza! Ascende, ó Soberana, ascende! Já não vale a ordem dada a Moisés: “Sobe e morre…” (Dn 31, 48) Morre, sim, mas eleva-te pela própria morte!
Entrega tua alma às mãos de teu Filho e devolve à terra o que é da terra, pois mesmo isso será carregado por ti.
Erguei vossos olhos, Povo de Deus, alçai vosso olhar! Eis em Sião a arca do Senhor Deus dos exércitos, à qual vieram pessoalmente prestar assistência os apóstolos, tributando seu derradeiro culto ao corpo que foi princípio de vida e receptáculo de Deus. Imaterialmente e invisivelmente os anjos o cercam com respeito, como servidores da Mãe de seu Senhor. O próprio Senhor lá está, onipresente, ele que tudo enche e abraça, que na verdade não está em lugar algum porque nele tudo está como na causa que tudo criou e tudo encerra.
Eis a Virgem, filha de Adão e Mãe de Deus: por causa de Adão entrega seu corpo à terra, mas por causa de seu Filho eleva a alma aos tabernáculos celestes! Santificada seja a Cidade santa, que acolhe mais essa bênção eterna! Que os anjos precedam a passagem da divina morada e preparem seu túmulo, que o fulgor do Espírito a decore! Preparai aromas para embalsamar o corpo imaculado e repleto de delicioso perfume! Desça uma onda pura a fim de haurir a bênção da fonte imaculada da bênção! Alegre-se a terra de receber o corpo e exulte o espaço pela ascensão do espírito! Soprem as brisas, suaves como o orvalho e cheias de graça! Que toda a criação celebre a subida da Mãe de Deus: os grupos de jovens em sua alegria, a boca dos oradores em seus panegíricos, o coração dos sábios em suas dissertações sobre essa maravilha, os velhos de veneráveis cãs em suas contemplações. Que todas as criaturas se associem nessa homenagem, que ainda assim não seria suficiente. Todos, pois, deixemos em espírito este mundo com aquela que dele parte. Sim, todos, pelo fervor do coração, desçamos com a que desce à sepultura e ali nos coloquemos. Cantemos hinos sacros e nossas melodias se inspirem nas palavras: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo!” Permanece na alegria, tu que foste predestinada a ser Mãe de Deus. Permanece na alegria, tu que foste eleita antes dos séculos por um desígnio de Deus, germe divino da terra, habitação do fogo celeste, obra-prima do Espírito Santo, fonte de água viva, paraíso da árvore da vida, ramo vivo que portas o divino fruto, donde fluem o néctar e a ambrosia, rio de aromas do Espírito, terra produtora da divina espiga, rosa resplandecente da virgindade, donde emana o perfume da graça, lírio da veste real, ovelha que geras o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, instrumento de nossa salvação, superior às potências angélicas, serva e Mãe!
Vinde, enfileiremo-nos em torno ao túmulo imaculado para dali sorvermos a divina graça! Vinde, abracemos em espírito o corpo virginal. Entremos no sepulcro e morramos nele, rejeitando as paixões da carne, vivendo uma vida sem concupiscência e sem mácula. Escutemos os hinos divinos, cantados imaterialmente pelos anjos. Entremos para adorar, aprendamos a conhecer o mistério inaudito: como esse corpo foi elevado às alturas, arrebatado ao céu, como a Virgem foi posta junto de seu Filho acima dos coros angélicos, de sorte que nada se interpusesse entre Mãe e Filho.


FONTE: GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 446-447.

sábado, 13 de agosto de 2016

Homilia: XX Domingo do Tempo Comum - Ano C

Santo Ambrósio
Tratado sobre o Evangelho de São Lucas
O próprio Senhor é esse fogo

Eu vim para pôs fogo na terra, e que devo querer senão que se acenda? Devo receber um batismo, e como me angustio até que isso se cumpra! Nos parágrafos anteriores ele nos expressou seu desejo de ver-nos vigilantes, esperando a qualquer momento a vinda do Senhor da salvação, com medo de que por relaxamento ou negligência, diferindo do trabalho do dia a dia, esse tal, alcançado pela própria morte ou pelo dia do juízo futuro, perca a recompensa de seu esforço.
Ainda que a apresentação geral do preceito vá dirigida a todos, porém, o sentido da comparação seguinte parece estar dirigida aos dispensadores, a saber, os Bispos, pelo qual devem saber que, ao fim da vida, se farão credores de um grande castigo se, preocupados pelos prazeres do século, governam com negligência a casa do Senhor e o povo a eles confiado.
Porém, como o proveito daqueles que são colhidos do erro por temor da punição é mínimo, e escasso também o acúmulo de seus méritos – porque é certamente de muito maior valor a caridade e o amor –, o Senhor aguça o nosso interesse para merecer a sua graça e nos inflama no desejo de possuir a Deus, dizendo-nos: Eu vim para pôr fogo na terra; mas não um fogo que destrói os bens, mas esse que faz germinar a boa vontade e enriquece os vasos de ouro da casa de Deus, destruindo o feno e a palha; esse fogo divino que queima os desejos terrenos, elaborados pelos prazeres mundanos, os quais devem perecer como obra da carne; esse fogo, enfim, o que ardia com força dentro dos ossos dos profetas, como diz esse grande santo que foi Jeremias: O que arde dentro de meus ossos é como um fogo abrasador.
De fato, o fogo do que está escrito: Arderá um fogo diante dele, é o fogo do Senhor. E ainda o próprio Senhor é esse fogo, como ele mesmo disse: Eu sou o fogo que queima e não se consome. Porque o fogo do Senhor é uma luz eterna, e é com este fogo que se acendem essas lâmpadas das quais disse mais acima: Estejam vossos rins cingidos e vossas lâmpadas acesas. E posto que o dia desta vida seja como uma noite, é necessária uma lâmpada. Também Emaús e Cléofas foram testemunhas deste fogo que o Senhor lhes tinha infundido, quando disseram: Não ardiam os nossos corações no caminho enquanto ele nos explicava as Escrituras?
Realmente, eles aprenderam com clareza qual é a ação própria deste fogo, que ilumina o mais íntimo do coração. Por isso, talvez, o Senhor virá ao fim com o sinal de fogo, com objetivo de destruir todos os vícios no momento da ressurreição, encher os desejos de cada qual com sua presença e lançar luz sobre os méritos e sobre os mistérios.
Tanta é a condescendência do Senhor, que testifica ter em seu coração um grande desejo de infundir-nos a devoção, de consumar em nós a perfeição e levar ao fim, em nosso favor, sua paixão. Este Senhor, que nada tinha que devesse estar sujeito á dor, quis angustiar-se por nossos sofrimentos, e no momento da morte se deixou levar por uma tristeza, que não era causada pelo medo a sua própria morte, mas motivada pelo atraso de nossa redenção; e por isso está escrito: E estou angustiado até que se cumpra! O qual nos explica claramente que ele, que se angustia até que se cumpra seu desejo, está seguro de que o realizará.
Mas também disse em outro lugar: Minha alma está triste até a morte. O Senhor não está triste pela morte, mas até a morte, porque o que lhe angustia não é o temor a ela, mas o sentimento de sua condição corporal. Porém, ele que se fez carne, teve também tudo o que era próprio da carne, como o ter fome, sede, angústias, tristeza, ainda que a divindade não conheça alteração por essas impressões. Ao mesmo tempo nos ensinou que, na luta contra a dor, a morte corporal é uma libertação do sofrimento e não uma consequência da dor.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, p. 697-698.