sábado, 20 de janeiro de 2018

Homilia: III Domingo do Tempo Comum - Ano B

Santo Efrém
Diatessaron, 4
A pesca continua

Os apóstolos vieram ao Senhor como pescadores de peixes e chegaram a ser pescadores e homens, de acordo com aquilo do Profeta Jeremias: Eis que enviarei pescadores de homens, e eles os pescarão por todas as montanhas e por todos os lugares elevados.
Se Cristo tivesse enviado sábios, se teria dito que persuadiram ao povo com a sua ciência, ou que o enganaram com sua sabedoria.
Se tivesse enviado homens ricos, se diria que alimentaram o povo, ludibriando-o; ou que corromperam as pessoas com o seu dinheiro, chegando, desta forma, a dominá-las.
Se tivesse enviado homens poderosos, se diria que os seduziram por sua força, ou o constrangeram por seu poder.
Mas os apóstolos não tinham nada disso. O Senhor o demonstra com o exemplo de Simão. Ele era pusilânime, pois foi presa do pânico diante da voz de uma criada; era pobre, pois não pôde pagar o imposto que lhe correspondia, uma moeda de ouro - Não tenho ouro, diz Pedro, nem prata. Era homem sem cultura, já que, quando negou o Senhor, não soube justificar-se com astúcia.
Foram enviados estes simples pescadores de peixes, que conseguiram vencer aos poderosos, aos ricos, aos sábios.
Milagre maravilhoso! Sendo fracos como eram, atraíram os poderosos à sua doutrina, sem coação alguma; sendo pobres ensinaram aos ricos; sendo ignorantes tornaram homens sábios e prudentes em discípulos seus.
A sabedoria do mundo cedeu lugar a esta sabedoria, que é a sabedoria das sabedorias.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, p. 375.

Fotos da Missa do Papa em Iquique

No último dia 18 de janeiro o Papa Francisco celebrou a Santa Missa votiva de Nossa Senhora do Carmo, Padroeira do Chile, no Campus Lobito, na cidade de Iquique, por ocasião de sua Viagem Apostólica ao Chile. Durante a celebração, o Papa coroou uma imagem de Nossa Senhora do Carmo.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Ján Dubina. O livreto da celebração pode ser visto aqui (pp. 91-121).

Para ler a homilia do Papa, clique aqui.

Procissão de entrada


Ósculo do altar
Incensação

Homilia do Papa: Missa em Iquique

Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chile e Peru
Missa da Virgem do Carmo e Oração pelo Chile
Homilia do Santo Padre
Iquique - Campus Lobito
Quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

«Em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos» (Jo 2,11).
Assim, termina o Evangelho que ouvimos e que nos mostra a primeira aparição pública de Jesus: nada mais, nada menos que numa festa. Não poderia ser doutra forma, pois o Evangelho é um convite constante à alegria. Logo no início, o anjo diz a Maria: «Alegra-te» (Lc 1,28). Anuncio-vos uma grande alegria: foi dito aos pastores (cf. Lc 2,10). O menino saltou de alegria no seio de Isabel, mulher idosa e estéril (cf. Lc 1,41). Alegra-te – fez Jesus sentir ao ladrão –, porque hoje estarás comigo no paraíso (cf. Lc 23,43).
A mensagem do Evangelho é fonte de alegria: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15,11). Uma alegria que se propaga de geração em geração, e da qual somos herdeiros. Porque somos cristãos.
Disto, bem vos entendeis vós, queridos irmãos do norte chileno. Sabeis viver a fé e a vida em clima de festa! Venho, como peregrino, celebrar convosco esta maneira linda de viver a fé. As vossas festas patronais, as vossas danças religiosas (que chegam a durar uma semana), a vossa música, os vossos vestidos fazem desta região um santuário de piedade e de espiritualidade popular. De facto, não é uma festa que fica fechada dentro do templo, mas conseguis vestir de festa toda a aldeia. Sabeis celebrar cantando e dançando «a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante de Deus; e deste modo gerais atitudes interiores que raramente se observam no mesmo grau em quem não possui esta religiosidade: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção [1]. Ganham vida as palavras do profeta Isaías: «Então o deserto se converterá em pomar, e o pomar será como uma floresta» (32,15). Esta terra, abraçada pelo deserto mais seco do mundo, sabe vestir-se de festa.
Neste clima de festa, o Evangelho apresenta-nos a ação de Maria, para que a alegria prevaleça. Está atenta a tudo o que acontece ao redor d’Ela e, como boa mãe, não fica parada e assim consegue dar-se conta de que na festa, na alegria geral, acontecera algo: algo que estava para arruinar a festa. E, aproximando-Se do seu Filho, as únicas palavras que Lhe ouvimos dizer são: «Não têm vinho» (Jo 2,3).
E de igual modo vai Maria pelas nossas aldeias, ruas, praças, casas, hospitais. Maria é a Virgem da Tirana, a Virgem Ayquina em Calama, a Virgem das Penhas em Arica, que passa por todos os nossos problemas familiares, aqueles que parecem sufocar-nos o coração, para Se aproximar de Jesus e dizer-Lhe ao ouvido: «Olha! Não têm vinho».
E não Se fica calada, mas logo Se aproxima dos que serviam na festa e disse-lhes: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). Maria, mulher de poucas palavras mas muito concreta, também Se aproxima de cada um de nós para nos dizer apenas isto: «Fazei o que Ele vos disser». E assim se abre o caminho ao primeiro milagre de Jesus: fazer sentir aos seus amigos que eles também participam do milagre. Porque Cristo «veio a este mundo, não para fazer a sua obra sozinho mas conosco; o milagre fá-lo conosco, com todos nós, por ser a cabeça dum grande corpo cujas células vivas somos nós, células livres e ativas» [2]. É assim que Jesus faz o milagre: conosco.
O milagre começa quando os serventes aproximam as vasilhas de pedra com água que se destinavam à purificação. Do mesmo modo também cada um de nós pode começar o milagre; mais ainda, cada um de nós é convidado a participar do milagre para os outros.
Irmãos, Iquique é uma «terra de sonhos» (tal é o significado do nome, em língua aymara); uma terra que soube albergar pessoas de diferentes povos e culturas, pessoas que tiveram de deixar os seus queridos e partir. Uma marcha sempre baseada na esperança de obter uma vida melhor, mas sabemos que sempre se faz acompanhar por bagagens carregadas de medo e incerteza pelo que virá. Iquique é uma região de imigrantes que nos lembra a grandeza de homens e mulheres; de famílias inteiras que, perante a adversidade, não se dão por vencidas mas mexem-se à procura de vida. Eles – sobretudo quantos têm que deixar a sua terra, porque não encontram o mínimo necessário para viver – são ícones da Sagrada Família, que teve de atravessar desertos para poder continuar a viver.
Esta é terra de sonhos, mas procuremos que continue a ser também terra de hospitalidade. Hospitalidade festiva, porque sabemos bem que não há alegria cristã, quando se fecham as portas; não há alegria cristã, quando se faz sentir aos outros que estão a mais ou que não têm lugar no nosso meio (cf. Lc 16,19-31).
Como Maria em Caná, procuremos aprender a estar atentos nas nossas praças e aldeias e reconhecer aqueles que têm a vida «arruinada»; que perderam – ou lhes roubaram – as razões para fazer festa. E não tenhamos medo de levantar as nossas vozes para dizer: «Não têm vinho». O grito do povo de Deus, o grito do pobre, que tem forma de oração e alarga o coração, e nos ensina a estar atentos. Estejamos atentos a todas as situações de injustiça e às novas formas de exploração que fazem tantos irmãos perder a alegria da festa. Estejamos atentos à situação de precariedade do trabalho que destrói vidas e famílias. Estejamos atentos a quem se aproveita da irregularidade de muitos migrantes porque não conhecem a língua ou não têm os documentos em «regra». Estejamos atentos à falta de teto, terra e trabalho de tantas famílias. E, como Maria, digamos: Não têm vinho.
Como os serventes da festa, tragamos o que temos, por pouco que pareça. Como eles, não tenhamos medo de «dar uma mão», e que a nossa solidariedade e o nosso compromisso em prol da justiça sejam parte da dança ou do cântico que hoje podemos entoar a nosso Senhor. Aproveitemos também para aprender e deixar-nos impregnar pelos valores, a sabedoria e a fé que os migrantes trazem consigo; sem nos fecharmos a essas «vasilhas» cheias de sabedoria e história que trazem quantos continuam a chegar a estas terras. Não nos privemos de todo o bem que eles têm para oferecer.
E depois, deixemos que Jesus possa completar o milagre, transformando as nossas comunidades e os nossos corações em sinal vivo da sua presença, que é jubilosa e festiva porque experimentamos que Deus está conosco, porque aprendemos a hospedá-Lo no meio de nós, no nosso coração. Júbilo e festa contagiosa que nos leva a não excluir ninguém do anúncio desta Boa Nova. Tudo aquilo que é da nossa cultura originária, devemos compartilhá-lo, juntamente com a nossa tradição, com a nossa sabedoria ancestral, para que a pessoa recém-chegada encontre sabedoria. Esta é a festa. Esta é água transformada em vinho. Este é o milagre que Jesus faz.
Que Maria, sob os diferentes títulos com que é invocada nestas abençoadas terras do norte, continue a sussurrar aos ouvidos de seu Filho Jesus: «Não têm vinho»; e, em nós, continuem a fazer-se carne as suas palavras: «Fazei o que Ele vos disser».

[1] Cf. Paulo VI, Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 48.
[2] Santo Alberto Hurtado, Meditação da Semana Santa para jovens (1946).


Fonte: Santa Sé

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Fotos da Missa do Papa em Temuco

No último dia 17 de janeiro o Papa Francisco celebrou a Santa Missa pelo progresso dos povos no Aeródromo de Maquehue na cidade de Temuco, por ocasião de sua Viagem Apostólica ao Chile.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Vincenzo Peroni. O livreto da celebração pode ser visto aqui (pp. 53-82).

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Procissão de entrada

 
Ósculo do altar

Homilia do Papa: Missa em Temuco

Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chile e Peru
Missa pelo Progresso dos Povos
Homilia do Santo Padre
Temuco - Aeródromo de Maquehue
Quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

«Mari, Mari [bom dia]».
«Küme tünngün ta niemün [A paz esteja convosco!]» (Lc 24,36).
Dou graças a Deus por me permitir visitar esta parte linda do nosso continente, a Araucania: terra abençoada pelo Criador com a fertilidade de imensos campos verdes, com florestas cheias de imponentes araucárias – o quinto elogio de Gabriela Mistral a esta terra chilena [1] –, seus majestosos vulcões cobertos de neve, seus lagos e rios cheios de vida. Esta paisagem eleva-nos a Deus, sendo fácil ver a sua mão em cada criatura. Muitas gerações de homens e mulheres amaram, e amam, este solo com ciosa gratidão. E quero deter-me aqui para saudar de forma especial os membros do povo Mapuche, bem como os outros povos indígenas que vivem nestas terras do sul: Rapanui (Ilha de Páscoa), Aymara, Quechua e Atacama, e muitos outros.
Esta terra, se a virmos com olhos de turista, deixar-nos-á extasiados, mas depois continuaremos a nossa estrada como antes, recordando-nos das lindas paisagens que vimos; se, pelo contrário, nos aproximarmos do solo, ouvi-lo-emos cantar: «Arauco tem uma pena que não posso calar, são injustiças de séculos que todos veem aplicar» [2].
É neste contexto de ação de graças por esta terra e pelo seu povo, mas também de tristeza e dor, que celebramos a Eucaristia. E fazemo-lo neste aeródromo de Maquehue, onde se verificaram graves violações de direitos humanos. Oferecemos esta celebração por todas as pessoas que sofreram e foram mortas e pelas que diariamente carregam aos ombros o peso de tantas injustiças. E, lembrando estas coisas, fiquemos uns momentos em silêncio a pensar em tanto sofrimento e tanta injustiça. O sacrifício de Jesus na cruz está repleto de todo o pecado e do sofrimento dos nossos povos, um sofrimento a ser resgatado.
No Evangelho que ouvimos, Jesus pede ao Pai que «todos sejam um só» (Jo 17,21). Numa hora crucial da sua vida, detém-Se a pedir a unidade. O seu coração sabe que uma das piores ameaças que atinge, e atingirá, o seu povo e toda a humanidade será a divisão e o conflito, a subjugação de uns pelos outros. Quantas lágrimas derramadas! Hoje queremos agarrar-nos a esta oração de Jesus, queremos entrar com Ele neste horto de dor, também com as nossas dores, para pedir ao Pai com Jesus: que também nós sejamos um só. Não permitais que nos vença o conflito nem a divisão.
Esta unidade, implorada por Jesus, é um dom que devemos pedir insistentemente pelo bem da nossa terra e seus filhos. E é necessário estar atento a eventuais tentações que possam aparecer e «contaminar pela raiz» este dom com que Deus nos quer presentear e com o qual nos convida a ser autênticos protagonistas da história. Quais são estas tentações? Uma é a dos falsos sinônimos.

1. Os falsos sinônimos
Uma das principais tentações a enfrentar é confundir unidade com uniformidade. Jesus não pede a seu Pai que todos sejam iguais, idênticos; pois a unidade não nasce, nem nascerá, de neutralizar ou silenciar as diferenças. A unidade não é uma simulação de integração forçada nem de marginalização harmonizadora. A riqueza duma terra nasce precisamente do facto de cada parte saber partilhar a sua sabedoria com as outras. Não é, nem será, uma uniformidade asfixiante que normalmente nasce do predomínio e da força do mais forte, nem uma separação que não reconheça a bondade dos outros. A unidade pedida e oferecida por Jesus reconhece o que cada povo, cada cultura são convidados a oferecer a esta terra abençoada. A unidade é uma diversidade reconciliada, porque não tolera que, em seu nome, se legitimem as injustiças pessoais ou comunitárias. Precisamos da riqueza que cada povo pode oferecer, pondo de lado a lógica de pensar que há culturas superiores e culturas inferiores. Um belo chamal [manto] requer tecelões que conheçam a arte de harmonizar os diferentes materiais e cores; que saibam dar tempo a cada coisa e a cada fase. Poder-se-á imitar de modo industrial, mas todos reconheceremos que é uma peça de roupa confeccionada sinteticamente. A arte da unidade precisa e requer artesãos autênticos que saibam harmonizar as diferenças nos «laboratórios» das aldeias, das estradas, das praças e das várias paisagens. A unidade não é uma arte de escrivaninha, nem é feita apenas de documentos; é uma arte de escuta e reconhecimento. Nisto se enraíza a sua beleza e também a sua resistência ao desgaste do tempo e às inclemências que terá de enfrentar.
A unidade, de que necessitam os nossos povos, requer que nos escutemos, mas sobretudo que nos reconheçamos, o que não significa apenas «receber informações sobre os outros (…), mas recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós» [3]. Isto introduz-nos no caminho da solidariedade como forma de tecer a unidade, como forma de construir a história; solidariedade, que nos leva a dizer: temos necessidade uns dos outros com as nossas diferenças, para que esta terra continue a ser linda. É a única arma que temos contra o «desflorestamento» da esperança. Por isso pedimos: Senhor, fazei-nos artesãos de unidade.
Outra tentação pode vir duma consideração equivocada de quais são as armas da unidade.

2. As armas da unidade
A unidade, se quer ser construída a partir do reconhecimento e da solidariedade, não pode aceitar um meio qualquer para esse fim. Há duas formas de violência que, em vez de fomentar os processos de unidade e reconciliação, acabam por os ameaçar. Em primeiro lugar, devemos estar atentos à elaboração de acordos «lindos», que nunca se concretizam. Palavras bonitas, planos terminados sim – e necessários – mas que, por não se tornar concretos, acabam por «borratar com o cotovelo o que se escreveu com a mão». Isto também é violência. Porquê? Porque frustra a esperança.
Em segundo lugar, é imprescindível defender que uma cultura do reconhecimento mútuo não se pode construir com base na violência e destruição, que acaba por ceifar vidas humanas. Não se pode pedir reconhecimento, aniquilando o outro, porque a única coisa que isso gera é maior violência e divisão. A violência clama violência, a destruição aumenta a fratura e a separação. A violência acaba por tornar falsa a causa mais justa. Por isso, digamos «não à violência que destrói», em qualquer uma dessas duas formas.
Estas atitudes são como lava de vulcão que tudo destrói, tudo queima, deixando atrás de si apenas esterilidade e desolação. Em vez disso, procuremos e não nos cansemos de procurar o diálogo para a unidade. Por isso, digamos vigorosamente: Senhor, fazei-nos artesãos de unidade.
Todos nós que, de certo modo, somos povo formado da terra (cf. Gn 2,7), estamos chamados ao bom viver (Küme Mongen), como no-lo recorda a sabedoria ancestral do povo Mapuche. Quanto caminho a percorrer, quanto caminho para aprender! Küme Mongen, um anseio profundo que brota não só dos nossos corações, mas ressoa como um grito, como um canto em toda a criação. Por isso, irmãos, pelos filhos desta terra, pelos filhos dos seus filhos, digamos com Jesus ao Pai: que também nós sejamos um só. Senhor, fazei-nos artesãos de unidade.

[1] Cf. Elogios de la tierra de Chile.
[2] Violeta Parra, Arauco tiene una pena.
[3] Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 246.


Fonte: Santa Sé

Fotos da Missa do Papa em Santiago do Chile

No último dia 16 de janeiro o Papa Francisco celebrou a Santa Missa pela paz e justiça no Parque O’Higgins em Santiago do Chile, por ocasião de sua Viagem Apostólica ao país. Durante a celebração, o Papa coroou uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Chile.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Ján Dubina. O livreto da celebração pode ser visto aqui (pp. 7-39).

Clique aqui para ler a homilia do Papa.

Procissão de entrada

Incensação

Vista aérea do Parque O’Higgins

Homilia do Papa: Missa em Santiago do Chile

Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chile e Peru
Missa pela Paz e Justiça
Homilia do Santo Padre
Santiago - Parque O’Higgins
Terça-feira, 16 de janeiro de 2018

«Ao ver a multidão…» (Mt 5,1): nestas primeiras palavras do Evangelho que acabamos de ouvir, encontramos a atitude com que Jesus quer vir ao nosso encontro, a mesma atitude com que Deus sempre surpreendeu o seu povo (cf. Ex 3,7). A primeira atitude de Jesus é ver, fixar o rosto dos seus. Aqueles rostos põem em movimento o entranhado amor de Deus. Não foram ideias nem conceitos que moveram Jesus; foram os rostos, as pessoas. É a vida que clama pela Vida, que o Pai nos quer transmitir.
Ao ver a multidão, Jesus encontra o rosto das pessoas que O seguiam; e o mais interessante é que elas, por sua vez, encontram, no olhar de Jesus, o eco das suas buscas e aspirações. De tal encontro, nasce este elenco de Bem-aventuranças, o horizonte para o qual somos convidados e desafiados a caminhar. As Bem-aventuranças não nascem duma atitude passiva perante a realidade, nem podem nascer de um espectador que se limite a ser um triste autor de estatísticas do que acontece. Não nascem dos profetas de desgraças, que se contentam em semear decepções; nem de miragens que nos prometem a felicidade com um «clique», num abrir e fechar de olhos. Pelo contrário, as Bem-aventuranças nascem do coração compassivo de Jesus, que se encontra com o coração compassivo e necessitado de compaixão de homens e mulheres que desejam e anseiam por uma vida feliz; de homens e mulheres que conhecem o sofrimento, que conhecem a frustração e a angústia geradas quando «o chão lhes treme debaixo dos pés» ou «os sonhos acabam submersos» e se arruína o trabalho duma vida inteira; mas conhecem ainda mais a tenacidade e a luta para continuar para diante; conhecem ainda mais o reconstruir e o recomeçar.
Como é perito o coração chileno em reconstruções e novos inícios! Como vós sois peritos em levantar-vos depois de tantas derrocadas! A este coração, faz apelo Jesus, para que este coração receba as Bem-aventuranças!
As Bem-aventuranças não nascem de atitudes de crítica fácil nem do «palavreado barato» daqueles que julgam saber tudo, mas não se querem comprometer com nada nem com ninguém, acabando assim por bloquear toda a possibilidade de gerar processos de transformação e reconstrução nas nossas comunidades, na nossa vida. As Bem-aventuranças nascem do coração misericordioso, que não se cansa de esperar; antes, experimenta que a esperança «é o novo dia, a extirpação da imobilidade, a sacudidela duma prostração negativa» (Pablo Neruda, El habitante y su esperanza, 5).
Jesus, quando diz bem-aventurado o pobre, o que chorou, o aflito, o que sofre, o que perdoou..., vem extirpar a imobilidade paralisadora de quem pensa que as coisas não podem mudar, de quem deixou de crer no poder transformador de Deus Pai e nos seus irmãos, especialmente nos seus irmãos mais frágeis, nos seus irmãos descartados. Jesus, quando proclama as Bem-aventuranças, vem sacudir aquela prostração negativa chamada resignação que nos faz crer que se pode viver melhor, se evitarmos os problemas, se fugirmos dos outros, se nos escondermos ou fecharmos nas nossas comodidades, se nos adormentarmos num consumismo tranquilizador (cf. Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 2). Aquela resignação que leva a isolar-nos de todos, a dividir-nos, a separar-nos, a fazer-nos cegos perante a vida e o sofrimento dos outros.
As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus.
Como nos faz bem pensar que Jesus, desde Cerro Renca ou de Puntilla, nos vem dizer: «Bem-aventurados...» Sim, bem-aventurado tu… e tu…, cada um de nós. Bem-aventurados vós que vos deixais contagiar pelo Espírito de Deus, lutando e trabalhando por este novo dia, por este novo Chile, porque vosso será o reino do Céu. «Bem-aventurados os obreiros de paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9).
E perante a resignação que, como uma rude zoada, mina os nossos laços vitais e nos divide, Jesus diz-nos: bem-aventurados aqueles que se comprometem em prol da reconciliação. Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão. Desta forma, a bem-aventurança faz-nos artífices de paz; convida a empenhar-nos para que o espírito da reconciliação ganhe espaço entre nós. Queres ser ditoso? Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.
Não posso deixar de evocar aquele grande Pastor que teve Santiago e que disse num Te Deum: «“Se queres a paz, trabalha pela justiça” (...). E se alguém nos perguntar: “Que é a justiça?” ou se porventura consiste apenas em “não roubar”, dir-lhe-emos que existe outra justiça: a que exige que todo o homem seja tratado como homem» (Cardeal Raúl Silva Henríquez, Homilia no Te Deum ecumênico, 18/IX/1977).
Semear a paz à força de proximidade, de vizinhança; à força de sair de casa e observar os rostos, de ir ao encontro de quem se encontra em dificuldade, de quem não foi tratado como pessoa, como um digno filho desta terra. Esta é a única maneira que temos para tecer um futuro de paz, para tecer de novo uma realidade sempre passível de se desfiar. O obreiro de paz sabe que muitas vezes é necessário superar mesquinhezes e ambições, grandes ou subtis, que nascem da pretensão de crescer e «tornar-se famoso», de ganhar prestígio à custa dos outros. O obreiro de paz sabe que não basta dizer «não faço mal a ninguém», pois, como dizia Santo Alberto Hurtado: «Está muito bem não fazer o mal, mas está muito mal não fazer o bem» (Meditación radial, abril de 1944).
Construir a paz é um processo que nos congrega, estimulando a nossa criatividade para criar relações capazes de ver no meu vizinho, não um estranho ou um desconhecido, mas um filho desta terra.
Confiemo-nos à Virgem Imaculada que, do Cerro San Cristóbal, guarda e acompanha esta cidade. Que Ela nos ajude a viver e a desejar o espírito das Bem-aventuranças, para que, em todos os cantos desta cidade, se ouça como um sussurro: «Bem-aventurados os obreiros de paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9).


Fonte: Santa Sé